País cuja história traduz a história do século XX, a Hungria sempre me despertou interesse. Tanto por ser o berço de Gyorgy Lukács e Imre Kertész, quanto por ser a infância do comunismo e o último suspiro do nazismo. Porém, a história é escrita pelos vencedores e em visita ao país no início do mês, não vi nem ouvi sobre um ou outro dos autores mas senti que o medo do comunismo é presente, se não na população, no atual governo.

Logo no primeiro dia visitei o Museu do Horror, inaugurado em 2002 sob o pretexto de mostrar o que foi a ocupação nazista e soviética em um dos países que ficou conhecido pelo Happy Comunismo após a Revolução Húngara de 1956. Na entrada os dois símbolos são colocados lado a lado. A tônica da exposição: comunismo e nazismo são ambos regimes ditatoriais fascistas. O museu está localizado em um lugar comum a ambos os regimes – o prédio foi tanto usado como prisão por nazistas como pelos assim chamados comunistas.  

A exposição começa pelo nazismo, que antes de ter sido imposto por um pretenço inimigo externo, foi resultado de uma escolha democrática. Nas eleições parlamentares de 1939, o partido nazista Húngaro, Arrow Cross, tornou se o segundo mais forte, com 300.000 membros e um eleitorado em torno de um milhão, enquanto o Partido Comunista seguia na ilegalidade desde 1919.

A Hungria lutou ao lado das Forças do Eixo durante a Segunda Guerra Mundial, frase que não se lê em um só dos painéis ou panfletos disponibilizados no museu. Com ajuda da Alemanha, o país conseguiu negociar assentamentos em disputas territoriais com a República da Tchecoslováquia, República Eslovaca e Reino da Romênia. Em 1941, se uniu oficialmente ao Eixo. Na guerra, a Hungria lutou ao lado dos nazistas na invasão da Iugoslávia e na Operação Barbarossa.


Lemos porém, que sob a pressão da Alemanha 60.000 judeus e ciganos foram forçados a marchar para as fronteiras com a Áustria para construir trincheiras e outros 70.000 foram presos em guetos. Sob o comando da Arrow Cross, a “solucao final” se deu às margens do rio Danúbio – onde hoje, imortalizados pela arte, os sapatos que foram arrancados dos judeus, como forma de humilhação antes do seu sequente fuzilamento em massa, são símbolos de uma vergonha universal.

Lemos ainda que “Os exércitos alemão e hungaro defenderam Budapeste como uma fortaleza, e que consequentemente o exército soviético apenas tomou a cidade depois de prolongada e amarga luta”, em um dos não raros momentos em que a Hungria é colocada como vítima durante a exposição. Lamentar a queda da Hungria, assim como a do nazismo, é ir além do razoável. Vale lembrar que mesmo inimigos declarados, URSS e EUA estiveram juntos nesta luta contra o nazismo, entendido como dos males o pior.

Por uma história que não se reduzida a propaganda mas que seja tempo de aprendizado

Será? Essa seria a réplica esperada na exposição. E de certa forma, a história soviética provoca a dúvida. Os gulags, a homogeinização da sociedade por meio da expulsão de povos de outras nacionalidades ou religiões, assassinatos e encarceramento de inimigos do regime, dissidentes ou descontentes, são algumas das atrocidades cometidas pelo regime.

A exposição porém não contribui para uma real apreensão do momento histórico. Posiciona o povo hungaro como vítima do estrangeiro alemão e russo, não assumindo responsabilidade sob seus atos, julgamentos e convicções, e acaba por apelar às emoções do público. Conforme li em um dos poucos artigos que encontrei sobre a Casa do Horror, “O museu apresenta a história como pesadelo, algo que não é uma narrativa, mas uma série de sensações ameaçadoras. Como uma casa assombrada, é capaz de provocar medo genuíno e, ao mesmo tempo, fazer a mente borbulhar com associações inesperadas.”

Em uma abordagem visual, o autor do artigo, Jacob Mikanowski, descreve como a exposição trabalha com sentimentos e sensações com o objetivo de manter o medo do comunismo atualizado. Em suas palavras “Esta é a mais pura verdade traduzida em uma seção da exposição que eu encarei como o coração do museu: uma sala contendo um único carro preto soviético, o tipo que policiais secretos usavam para pegar suas vítimas, na calada da noite. O carro é obscurecido por detrás de uma cortina preta diáfana, como se fosse muito maligno para ser olhado diretamente. Um foco de luz acende e apaga intermitentemente, iluminando o banco de trás. Estofados em veludo vermelho exuberante, o assento brilha como um coração gigante, batendo em um ritmo lento. Parece algo saído de um filme de David Lynch, como a Sala Vermelha em “Twin Peaks” ou o Clube do Silêncio em Mulholland Drive.”

Essa também é a tônica de outro museu estatal que visitei, o Memento Parque. O museu foi construído em 1993 para atender uma demanda objetiva, onde colocar as estátuas símbolos da cultura soviética? Algumas haviam sido destruídas anteriormente durante os processos de luta e transição de regimes, como é o caso da estátua de 8 metros de Stalin, que já em 1956 foi derrubada pela população durante a revolução.

Permaneceram intactas porém, as estátuas de Lenin, Marx e Engels, Dimitrov, Capitão Ostapenko e Béla Kun, assim como respresentações de soldados do exercito vermelho e de trabalhadores. As imagens de Lenin, Marx e Engels (cravadas em estilo cubista) estão colocas logo na entrada a dar boas vindas aos visitantes. O parque conta com não mais de 42 estatuas, um acerto pequeno se comparado ao trip Tower Park em Berlin, por exemplo.


O mais curioso portanto foi saber o que os húngaros dizem sobre tais monumentos. Segundo a guia local, duas estátuas em particular são motivo de piada. Uma representa um soldado soviético apertando a mão de um trabalhador hungaro, este entregando-lhe as duas mãos em cumprimento, o outro apenas uma e mantendo a outra em estado de alerta. A imagem representa não apenas como foi a redenção húngara ao comunismo mas ainda como a Hungria se doou mais nesta relação de “amizade”. Por outro lado, o que o povo diz, segundo a guia, é que na verdade o trabalhador húngaro está protegendo seu relógio do soldado russo.

A outra estátua, que acredito ser a maior da exposição, mostra um trabalhador forte, correndo de peito aberto com o que indica ser uma bandeira em sua mão, recebeu o nome de algo que pode ser traduzido como o atendente da chapelaria ( cloakroom attendant) – que corre para devolver um casaco esquecido ao seu dono.


A parte interna da exposição traz poucas informações textuais dispersas na parede e um documentário que é um manual de formação de agentes secretos. O manual ensina como entrar na casa de pessoas suspeitas, revirar a mobília, abrir estofados e depois manter tudo intacto. Até mesmo um fio de cabelo que estava em determinado local quando o agente entrou na casa deve ser recolocado no mesmo lugar após a inspeção.

Para entrar em uma casa sem ser descoberta, a polícia secreta armava para que o suspeito fosse convidado a realizar exames de rotina no hospital, por exemplo. Para realizar o procedimento o paciente deveria trocar de roupa e entregar seus pertences para a enfermeira, que os guardaria em um armário. Durante o exame porém, agentes reviravam seus pertences e ao encontrar suas chaves, faziam copias imediatamente, em uma de suas saletas localizadas estrategicamente no hospital. Assim, sem precisar invadir, o agente entrava na casa do cidadão suspeito, antes mesmo que se provasse o contrário.

Porque o comunismo real nunca foi além de seu estágio capitalista

Foi em um turismo ao estilo “pague o quanto puder” que me surpeendi com um olhar mais amplo sobre o que foi o comunismo húngaro – uma posição que sabe filtrar as positividades do regime ao mesmo tempo em que mostra e combate suas negatividades.   

O guia apresentou um resumo da história da Hungria indo do pós nazismo até a Revolução de 1956, período de forte opressão stalinista, seguindo para um segundo momento da revolução, no qual a Hungria ficou conhecida como a “trincheira mais feliz do fronte.”

Durante esse período, o emprego era pleno, chegando ao ponto do indivíduo que fosse visto na rua sem trabalhar ser encaminhado para a prisão. Ou seja, trabalhar era o mote, o que por assim dizer não difere de orientações nazistas ou mesmo de ordens religiosas. O lema protestante segundo o qual o trabalho dignifica o homem foi repetido por capitalistas, reiterado por nazistas e revisitado pelos comunistas. A questão aqui está no sentido que se dá ao trabalho. No caso da Hungria – e dos países de orientação comunista de forma geral – o trabalho se pretendia fonte de riqueza social, de apropriação coletiva.

E aqui consiste a desgraça soviética: a Revolução de Outubro não conseguiu romper com a forma mercadoria. Enquanto a história é revista, faz pensar que a história do comunismo é uma história interrompida – se não desviada. Não houve superação do mercado na URSS ou da mercadoria em sua forma complexa. O que houveram foram tentativas, no contexto de uma sociedade cindida em classes, de derrubar tais antagonismos, por meio de uma ditadura do proletariado em um primeiro momento, e assim seguir para um estágio superior de sociabilidade: igualitário nas oportunidades e solidário pela vontade, na qual o trabalho é um meio de cultivar o bem estar social e não fonte de expropriação da vida alheia. Infelizmente, a segunda fase nunca chegou. A sentença: o comunismo sob a orientação soviética nunca foi além de seu estágio capitalista.

Tema caro a Hungria de hoje é a questão da moradia. São diversos os moradores de rua espalhados pela capital. É cinico andar pela cidade e não notar o contraditório da miséria real humana e seu potencial expresso em magestosas construções: imponentes castelos, suntuosas igrejas e a grandiosidade de um parlamento que é um dos mais magníficos e maiores do mundo, sendo o segundo na Europa, atrás apenas do Parlamento Romeno, esse sim o maior do mundo.

Conforme o guia nos contou e turistas do leste europeu presentes na visitação completaram, a política de moradia era rigorosa durante o comunismo. Não era admitido pessoas dormindo nas ruas, por isso o emprego pleno e o aluguel à baixo custo. Comprar um imóvel era tarefa árdua, costumava levar cerca de 10 anos. Buscava-se com isso evitar a expeculação imobiliaria e garantir que todos tivessem acesso a moradia.

Os prédios na Hungria são muito antigos e para reformá-los e torná-los habitáveis demanda um processo custoso. Hoje vemos espalhados pela cidade muitos prédios vazios, ao que o guia justificou sendo por conta de lei que sustenta que prédios com mais de 100 anos são considerados históricos e por isso devem ser reformados segundo seu original – o quer se tratando da arquitetura hungara, é cara na proporção de sua complexidade e detalhe.

Entre a população, há um saudosismo por parte da velha guarda. Segundo eles, antes a vida era garantida, hoje o futuro é incerto. Com a queda da URSS, a vida foi descortinada e o que era um ideal de liberdade se mostrou não mais do que a democracia do 1%.

Da cortina de ferro ao arame farpado

Com a queda da cortina de ferro, a Hungria foi o primeiro país a abrir suas fronteiras com a Áustria, o que foi comemorado internacionalmente com um passo rumo a liberdade. Em 1990, o ex lider comunista Miklós Németh foi substituído por József Antall e seu partido de extrema direita ficou no poder até 1994, quando assumiu o MSZP ( Partido Socialista Hungaro), que dirigiu o país até 1998, quando Viktor Orbán foi eleito. Orban ficou no cargo até 2002, ano no qual a Casa do Horror foi inaugurada, vale contextualizar. Entretanto a história tem sua dose de comédia e o Partido Socialista voltou ao poder por mais 8 anos.

Em 2010 Viktor Orban foi reeleito, permanecendo no cargo até hoje. Armado com uma maioria absoluta no parlamento (apesar de ganhar apenas 53% dos votos), seu partido, Fidesz, agiu rapidamente para consolidar seu poder. O primeiro ministro tem colocado seus apoiadores a frente dos tribunais de justica e tem censurado a mídia ao ponto de transformar veículos de imprensa em órgãos do partido. Ao mesmo tempo, tem alterado sistematicamente a legislação a fim de tornar quase impossível uma eficaz oposição ao seu governo. O Fidesz lançou proposta que visa atribuir ao partido socialista responsabilidade por todos os crimes perpetrados pelo sistema comunista, fechando o caminho político de seu maior oponente.

Este processo culminou com a aprovação de uma nova constituição que ameaça fazer muitas dessas mudanças permanentes. De acordo com Kim Lane Scheppele, especialista em direito constitucional e observadora atenta da situação húngara, trata-se de uma ” constituição inconstitucional “.

O primeiro ministro, que volta e meia protagoniza “deslizes” históricos em discursos de teor antissemita, foi um dos primeiros lideres da UE a expressar seu desacordo em receber refugiados vindo do oriente, em sua maioria sírios, fugidos do terror provocado pelo grupo ISIS. Seu último grande ato foi quando, em 2015, mandou erguer uma cerca de arame farpado fechando as fronteiras do país.

Em sintese?

Visitar a Hungria de certa forma foi incomodo. Não tanto por lembrar de um triste lado da revolução comunista, o que é necessário encarar, mas principalmente porque a história tem sido usada, uma vez mais, para fabricar o medo. Em momento algum foi feita autocrítica por parte do governo hungaro, pelo contrário, a Hungria se coloca como vítima, atormentada por um passado que lhe assombra como pesadelo. Sem admitir responsabilidade, sem reconciliar passado e presente não há terreno que sustente a Hungria num hoje que seja o representante do novo.

Nesse sentido, não é de se estranhar que, 26 anos depois da queda do muro de Berlin, a Hungria erga uma cerca contra refugiados que, não menos do que eles, tiveram suas vidas e história marcadas pela influência do estrangeiro. Hoje o primeiro ministro Viktor Orban manipula não só a história para manter os socialistas afastados do poder e justificar seu modelo de democracia “linha dura”, como para localizar no campo dos outros, indivíduos que buscam por refúgio.

Ao povo húngaro eu diria, assim como à todos nós, que o silêncio causado pelo medo nos torna também responsáveis. Que sejam eles, não eu? É uma escolha. Em todo caso, nós já estamos na linha de frente e para que nossa sorte não seja decidida na roleta russa é preciso assumir responsabilidades.

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