Há pouco mais de 6 meses Aquarius estreava nos cinemas brasileiros envolto a grandes expectativas. A necessária denúncia da equipe do filme no Festival de Cannes contra o golpe de estado em curso no Brasil e o consequente fechamento do Ministério da Cultura, assim como a não indicação do filme para o Oscar em meio a tantas críticas positivas e premiações em festivais, inseriu Aquarius à esquerda de um debate político que, diluído na bipolaridade impeachment ou golpe, aproximava ou distanciava indivíduos a priori.

O filme estreou há apenas algumas semanas em Dublin, quando tive a oportunidade de assistir. Capa da revista The Ticket, do jornal The Irish Times, trazia na chamada a contrapropaganda de Reinaldo Azevedo utilizada na divulgação do filme: “It is the duty of people of goodwill to boycott this film’’. Além de resenha da obra, a edição trazia entrevista com o diretor Kleber Mendonça Filho e classificação máxima de 5 estrelas no ranking de avaliação.

Para além da contraindicação de Azevedo, que para o público alvo do filme constitui um dos muitos elementos convidativos da obra, Aquarius é um filme que traz uma protagonista atípica: Clara é mulher, uma viúva de 65 anos e mãe de três filhos, que perdeu um dos seios por conta de um câncer na mana, mas que ainda assim é atraente e sexualmente ativa. Clara ouve vinil, escreve sobre música clássica, caminha na praia, tem uma alimentação saudável e valoriza as coisas pelo seu valor em si. Ela antagoniza com Diogo, um jovem ambicioso que estudou “business” nos EUA e trabalha na construtora do avô. Diogo é a expressão de um tempo no qual é imperativo agir, e no qual o sentido e o valor das coisas é mensurável pela sua rentabilidade.

Ambos são da classe dominante. A diferença é que não é o dinheiro que move Clara. Ela luta pela permanência das memórias de uma vida. E ao afirmar que estórias importam e que o sentido do futuro é dado pelo presente, Clara entra em confronto com o “inevitável progresso”, representado por uma gigante da construção civil nacional que passa como rolo compressor por cima de tudo o que não lhe interessa.

A crítica do filme, porém, parece restrita a um tipo específico da classe dominante, àquela mais rudimentar nos sentidos, pragmática. Não é uma crítica aos privilégios ou as classes em si. Clara, por exemplo, é retratada como uma boa patroa, sempre amparada e defendida pela empregada Ladjane. Uma relação complexa que encerra pontos altos do filme e justifica esse texto.

É a caminho da festa de aniversário de Ladjane que o espectador é apresentado ao drama das camadas mais pobres da nossa sociedade. Clara mostra para a namorada carioca do sobrinho que do lado de lá do canal do esgoto fica a parte pobre da cidade e que é lá onde mora Ladjane. A empregada também tinha um filho, ela conta, que morreu atropelado. Seu assassino saiu impune.

Esse diálogo e as cenas da festa, como quando um cartaz com a foto do filho de Ladjane é colocado ao lado da mãe na hora do parabéns, elevam ao insustentável as contradições que vinham sendo sutilmente reveladas na trama e minimizadas dada a pretensa magnificência de Clara. A resistência de Clara e sua moralidade não diferem da de uma aristocracia que outrora via na ascensão da burguesia um embrutecimento do gosto, das práticas e dos costumes. Mantém se a lógica moral das classes dominantes, que muda na forma mas mantém seu conteúdo autoritário. Sendo no prédio de Clara ou no luxuoso Novo Aquarius o espaço em disputa não insere Ladjane como protagonista.

Clara é um personagem cujo discurso de resistência se pauta em uma sensibilidade e revolta restrita. Fiquei esperando e torcendo para que do silêncio causado pelo peso da conversa entre Clara, o sobrinho e a namorada, nascesse algum questionamento no futuro. Mas não. Diferente de Clara, o destino de Ladjane aparece a todos como natural, sem saída. É consenso que é triste e mais nada.

Assim como é natural à elite brasileira empregadas domésticas interromperem seu trabalho para pegar um copo d’água para o patrão que acabou de voltar da praia, é natural que o assassino do filho de Ladjane não sofra consequências pelo seus atos. Também passa inquestionável que Clara, a boa patroa, nunca usou de sua influência com a elite local, como o fez quando em luta contra a construtora, para descobrir quem teria matado o filho de Ladjane ou para sequer ajudá la com um advogado.

O importante não importa e é na moldura que se encontra o maior valor da obra. Aquarius não permite nenhuma problematização ou crítica social mais profunda. Nenhum privilégio é revisto e Clara segue até o fim da mesma forma que começou, soberana. Concebida como uma mocinha, não resta espaço para autocrítica, para rever posições de privilégio. Afinal, numa época de submissão generalizada, Clara é uma mulher que não se curva nem ao mar (que bem simboliza a natureza das coisas) nem ao poder das grandes corporações ( às imposições do capital). Algo que Ladjane nunca pode vir a ser.

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