Este mês a Oxfam publicou seu relatório anual sobre desigualdade econômica, no qual revela que 8 pessoas detém o que metade da humanidade, 3,6 bilhões, não tem . No relatório anterior, de 2016, falava-se de 62 pessoas. Ainda segundo a ONG, os mais ricos estão lucrando tanto e tão rápido que em apenas 25 anos o mundo poderá ter seu primeiro trilhardário.

É neste contexto que uma em cada 9 pessoas passa fome; que a Europa fecha suas fronteiras para refugiados que ao tentar escapar da morte certa em seus países veem a liberdade ocidental reduzida a mera promessa; que o estandarte da democracia contemporânea, os EUA, tem uma população carcerária equivalente a ¼ da população carcerária mundial; que britânicos dividem suas casas com desconhecidos e os desempregados fazem fila para conseguir sua cota básica de comida e produtos de higiene- realidade considerada própria de regimes comunistas; e que a escravidão ainda existe, de norte a sul, inclusive nas fábricas que produzem para a Zara, marca de roupas pertencente a um dos 8 afortunados contemplados no estudo. É nesse contexto que uma população anestesiada confunde democracia com meritocracia. Mais ainda: confunde desenvolvimento econômico com destruição e genocídio.

Também neste contexto, li na página de um amigo no Facebook o seguinte comentário a respeito do tal estudo:

“Moralmente não está certo. Mas se você tirar o dinheiro desses oito e der para os 50% mais pobres, daqui a 5 anos eles estarão ainda mais pobres e mais uns 30% da população, que não era pobre porque vivia da riqueza gerada por esses oito também estará na pobreza. A História já provou que se você divide tudo igualmente entre todos, uma hora não há mais nada para dividir”.

Primeiramente, eu não sei a que história ele se refere ou onde isso foi sequer tentado – a riqueza foi dividida igualmente em algum lugar? Mas o que mais me chocou nesse comentário é o complexo de inferioridade do ser em questão – uma característica, serei justa, que infelizmente não é mera qualidade pessoal, mas uma moral compartilhada socialmente.

Convenhamos, ele de fato acredita na superioridade natural dessas pessoas e que pobreza é falta de competência? Já ouviu falar de herança? Ele realmente acredita que o fato de ter nascido em uma família que pôde arcar com a melhor educação possível desde o ensino básico até a universidade não contribuiu em nada para a formação destes milionários? Então por que pessoas se endividam uma vida toda para fazer faculdade? Ou ainda, se os mais pobres tivessem as mesmas oportunidades dos mais ricos, eles não teriam a mesma capacidade? Não teriam tanto dinheiro quanto?

Capacidade teriam, mas uma vez que o capitalismo é pautado na exclusão e expropriação de trabalho alheio, não da para todo mundo lucrar junto. Não é assim que o jogo funciona. Desemprego é necessário e a concentração de renda é a tendência.  E é por isso que não dá para fazer como o ser em questão e confiar nosso futuro nas mãos de “administradores profissionais” protegidos por um direito de posse não menos místico do que líderes absolutistas de outros tempos.

A Revolução Francesa derrubou a monarquia ao destruir sua base ideológica de sustentação. Justificado o poder despótico de reis como a vontade de deus na terra, assim como a consequente miséria experimentada por seus súditos, a premissa que estava posta pelo aparato estatal monárquico era que o lugar de nascimento determinava a posição social do indivíduo.

De mobilidade social quase inexistente, tal estrutura foi questionada por uma burguesia em ascensão, que se assentava sob ideais revolucionários. Liberais, eles defendiam que todos – os homens- eram iguais e por isso deveriam lutar na arena mercado de igual para igual, sem intervenção do estado, que servia apenas para sustentar os luxos de uma aristocracia parasitária, gastos militares e uma política de expansão colonialista.

A inversão de paradigma entre uma e outra perspectiva é radical. Nota se um ideal humanista embrionário presente no pensamento liberal da época. Por outro lado, como a força da vontade não é imune às determinações materiais (oportunidade de acesso à educação, moradia, trabalho, subsistência…), comunistas e anarquistas a época ampliaram o debate, ao defender que a origem da desigualdade se encontrava na propriedade privada dos meios de produção. Que a primeira só poderia ser superada com a erradicação da segunda.

Tendo a revolução burguesa triunfado, não tardou para que a burguesia abandonasse seu caráter revolucionário e se convertesse em uma classe que visa manter privilégios. Neste contexto, o estado foi reformado mas seguiu em defesa dos direitos da classe dominante, como lhe é próprio.

Reduzido o mérito a uma justificativa cínica que culpabiliza o indivíduo por desigualdades sociais crescentes, os neoliberais seguem em sua crítica ao estado mas – sempre- de forma unilateral. Desmontaram estados de bem estar social erguidos no período entre guerras que, embora orientados ao desenvolvimento do capital, criaram e desenvolveram programas sociais – até então presentes apenas em discursos da social democracia – e passaram a taxar consideravelmente as grandes fortunas e heranças, entendidas como fonte de uma desigualdade hereditária.

Inegavelmente, a qualidade de vida da população melhorou com tais políticas distributivas – inclusive gerou se uma ampla classe media que, contraditoriamente, passou a ir contra o proprio estado de bem estar social que possibilitou sua ascensao economica. Porém, a valorizacao do capital sempre foi o objetivo dos estados nacionais. Conforme mostra Thomas Piketty em seu audacioso O Capital no Século XXI , se no período de 1932-1980, a taxa superior do imposto federal sobre a renda foi, em média, de 81% nos Estados Unidos, temendo perder a hegemonia conquistada num contexto de recessão econômica, EUA e Inglaterra não tardaram em cortar investimentos em programas sociais e da previdência nos anos 1980. Com a reforma neoliberal de Reagan e Thatcher a arrecadação estatal caiu para 30-40% nos anos 1980-2010.

As referências a Piketty restringem se aos dados fornecidos em sua pesquisa, uma vez que a solução sugerida por ele para diminuir a desigualdade seria mais estado e uma cooperação global entre governos para taxar as grandes fortunas – ao que ele mesmo considera idealista devido a falta de interesse dos estados nacionais em tal medida. Tal compreensão segue na mesma linha proposta pela Oxfam em seu relatório, e ambos não levam em consideração que cada época tem o estado que melhor representa os interesses da classe dominante – neste caso definidos pela necessidade constante de valorização do capital, pela busca desenfreada de lucro. Essa é a prioridade do sistema capitalista e a própria realidade assim confirma.

Em uma postura que reitera a filantropia como uma zona de conforto que se compraz com privilégios inquestionáveis, a Oxfam pede doações para ajudar crianças e mulheres vítimas da fome em países da África subsariana, ou vitimas das guerras no Oriente Médio. Por outro lado, não sinaliza interesse ou apoio a comunidades que se organizam como alternativas ao capitalismo, inclusive em tais regiões de guerra com é o caso no Curdistão Sírio.

Não pretendo com isso insinuar ou afirmar que a ONG não tem boas intenções, mas mostrar que tal escolha demonstra que o capitalismo é entendido, também por eles, como o fim da história, o fim da linha, e que a única saída é torná lo menos sofrível, mais suportável. Ao meu ver, fim de linha é abismo – e o sentido figurativo de tal afirmação depende da nossa capacidade de criar e seguir por vias alternativas. Ao invés de uma lógica resignada que te diz: aceite, doe, reproduza, porque não criar, lutar e transformar o mundo e a si? Em sintonia com a história, esse futuro me parece mais dotado de sentido do que 8 pessoas controlarem nossos destinos.

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